Profº MsC. MÁRCIO BALBINO CAVALCANTE. Geógrafo - UEPB; Mestre em Geografia - UFRN e Especialista em Ciências Ambientais - FIP. - Cidade: João Pessoa, Paraiba - Brasil E-mail: marcio-balbino@hotmail.com SEJA BEM VINDO !!!
Quarta-feira, 4 de Março de 2009
Geógrafo defende renovação continuada de professor

Geógrafo defende renovação continuada de professores, melhoria de materiais didáticos e atuação social de pesquisadores

 

Em salas de aula, palestras, conferências e nos livros que produz - didáticos, além das teses, ensaios e obras -, o vozeirão eloqüente de Demétrio Magnoli brada pela visão da geografia como uma gramática do mundo e não mero conhecimento de almanaque. "Aluno tem interesse de sobra quando a geografia faz sentido", diz o professor que há duas décadas leciona nos ensinos fundamental, médio e superior. Bacharel em ciências sociais e jornalismo pela USP e mestre e doutor em geografia humana pelo departamento de geografia da USP, Magnoli é defensor da publicação de livros didáticos por pesquisadores e da saída dos geógrafos de seus gabinetes em busca de uma atuação social mais efetiva. Finalista do Prêmio Jabuti de 1997 com O Corpo da Pátria: Imaginação Geográfica e Política Externa no Brasil (1808-1912).

 

Educação - Quais são as questões mais relevantes hoje no ensino de geografia? Demétrio Magnoli - Destacaria três. A primeira é o desenvolvimento das linguagens específicas da geografia e das linguagens que ela compartilha com outros campos do conhecimento. Isso significa ler e interpretar mapas (o que não é fácil), gráficos e tabelas comparativas. A segunda questão importante é o reconhecimento do espaço geográfico como um espelho do tempo, conceito crucial para o ensino moderno. Os alunos têm de ser capazes de, no final do ensino médio, ver em duas paisagens as marcas impressas de tempos diferentes. Quando se observa uma ferrovia passando por uma cidade, deve-se saber que aqueles trilhos e galpões ao redor são reflexos de um tempo em que a cidade se organizava em torno de trilhos. E que uma autopista em torno da mesma cidade e um cabo de fibra óptica passando em outro ponto dessa paisagem revelam outro tempo histórico, em que a revolução da informação se tornou fundamental. Isso revela a interface da geografia com a história.

 

Educação - E a terceira questão? Magnoli - O terceiro aspecto é a capacidade de relacionar os conteúdos da disciplina com os fatos da atualidade. Um problema histórico dos professores de geografia é a competição acirrada com a mídia. Informação, todos têm, e abundante. O problema não é a informação, mas sua interpretação. É esse o papel da escola: dar um sentido a essa torrente de informações. Escola não é para informar e sim inter-relacionar, coordenar esse conjunto de informações que a mídia proporciona.

 

Educação - Como está o ensino de geografia hoje? Magnoli - Em transformação. O ensino tradicional de geografia tem algumas características: a descrição de paisagens, o conceito limitante de região, contaminado pela prática da memorização, e o caráter fragmentário, que encara o espaço geográfico não como uma totalidade de relações. As geografias urbana, política e física parecem funcionar separadamente. É um ensino inerte, pois a maioria dos professores foi formada assim. Até os vestibulares, ainda que poucos, legitimam esse tipo de geografia. Mas estamos caminhando para um ensino que coloca como problema principal a descoberta de relações entre classes de fenômenos (políticos, sociais, econômicos) e que se preocupa com o desenvolvimento da leitura de linguagens. Essas mudanças estão em todos os lugares: nos melhores vestibulares do país, em parte dos materiais didáticos e na prática cotidiana dos professores de superar a própria formação.

 

Educação - O que é preciso melhorar? Magnoli - Falta um processo de renovação continuada. Em palestras e oficinas se tem pouco tempo, suficiente apenas para despertar interesse e levantar questões. É pouco. Os Estudos Avançados da USP - via faculdade de educação - estão começando uma série de cursos de especialização lato sensu para professores de várias áreas, com módulos de pelo menos 32 horas e que vão durar até o fim do ano. É preciso mais iniciativas desse tipo. Não basta criar os Parâmetros Curriculares Nacionais nem um novo documento que mude o ensino. Ensino é um processo. Precisa de orientação continuada e de bons materiais didáticos.

 

Educação - Como os alunos podem se interessar mais por geografia? Magnoli - Basta fazer um ensino que tenha sentido, que mostre relações. Essa geografia o interessa. O que nenhum aluno tem interesse é na "decoreba" baseada na idéia de que os conteúdos são apenas informações sobre a paisagem - isso está em qualquer geografia de almanaque. Alunos têm interesse de sobra. O que acontece é que o mundo está mais complexo e a qualificação dos jovens para o mercado de trabalho é mais sofisticada. A tarefa da escola ficou mais difícil. Os alunos de hoje aprendem mais do que as gerações passadas o fizeram, pois as exigências são maiores. Talvez haja falhas em alguns aprendizados formais, como língua e matemática, mas a diversificação de exigências e as exigências de inter-relações são maiores agora.

 

Educação - Qual é o erro mais freqüente dos professores? Magnoli - É imaginar que as disciplinas podem ficar iguais, que é só colocar uma cereja em cima desse bolo e integrar eventualmente disciplinas - sem que elas incorporem essa idéia do diálogo interdisciplinar (que não significa eliminar o que há de específico e singular de cada uma). É preciso ver que dentro de geografia existe história. Isto é, também, se intimidar diante das mudanças. O professor que teve um curso fraco na faculdade e com base em materiais antiquados teme a idéia de transformação.

 

Educação - Por que alguns alunos chegam à universidade com falhas graves de geografia? Magnoli - Eles chegam com falhas graves em todas as disciplinas. Isso tem relação com a estrutura do ensino fundamental e médio que temos no Brasil há décadas. No caso da geografia é porque, durante muito tempo, ela não fez sentido. Se a geografia só serve para fazer prova porque é "decoreba", a melhor atitude do aluno é esquecê-la depois da prova: isso é uma atitude racional e o aluno não deve ser criticado por isso. O que precisa ser criticado é o discurso que ele recebeu. Mas se a geografia é vista como uma gramática do mundo, um instrumento para decifrar relações, então ela passa a ter sentido e o aluno vai se apropriar desse conhecimento, porque ele é fundamental para as outras disciplinas e para sua vida.

 

Educação - Quais os temas atuais da área que mais têm despertado interesse dos alunos? Magnoli - Globalização e suas conseqüências; as mudanças macroeconômicas do Brasil, como o processo de abertura econômica, privatizações, sua inserção no Mercosul e discussões regionais como a da Alca; conflitos políticos contemporâneos; impactos ambientais das atividades econômicas (agricultura, construção de hidrelétricas), este último, um tema inter-relacional.

 

Educação - Como os temas transversais ajudam o ensino de geografia? Magnoli - Uma das coisas positivas dos PCN é procurar mostrar aos professores como se realiza diálogos entre disciplinas. A lista desses temas não é importante. O que vale é que a idéia do diálogo entre as disciplinas seja incorporada à prática pedagógica. Quando essa idéia for incorporada, não vai ser necessário que nenhum documento oficial faça uma lista de temas, porque qualquer professor vai saber fazer a sua, adequada à sua escola e região.

 

Educação - O que deve ser melhorado nos livros didáticos? Magnoli - A primeira coisa é melhorar a relação do professor com o livro: este não deve ser entendido como uma receita do curso, o professor não deve fazer uma cópia de seu índice. O livro é uma plataforma com base na qual é preciso criar uma aula. Seu curso deve ter uma série de outros elementos: livros paradidáticos, materiais de áudio, jornais, revistas, estudo do meio. A segunda questão é o livro em si. Há uma série de erros conceituais na maioria dos livros didáticos. Eles têm de se modernizar, em conceitos e conteúdos - os autores têm de estar por dentro do que hoje se produz na universidade - e devem ser atualizados do ponto de vista de competências e habilidades. Não basta desenvolver conteúdos, é preciso desenvolver a competência de leitura de uma linguagem. A principal leitura dos professores não é de livros acadêmicos, ensaios ou teses. Isso é leitura de uma elite. A principal leitura é o livro escolar. E o Brasil precisa mudar a forma de ver os livros didáticos. Na França ou Espanha, livros escolares são escritos por acadêmicos e essa atividade é vista como muito importante. Aqui, é vista como uma atividade menor. É preciso criar uma ponte entre pesquisa e ensino. A universidade precisa assumir sua responsabilidade integral pelo ensino e ver o livro como uma parte de sua atividade.

 

Educação - Como o governo pode ajudar a construir essa ponte? Magnoli - O MEC começou a fazer avaliações dos livros didáticos. Só que essa experiência começou errado, ao se criar uma comissão de avaliadores do próprio MEC. Depois o MEC avançou, e atribuiu às universidades a avaliação dos livros. Falta melhorar mais: atribuir essa avaliação não a uma, mas a várias universidades, pois é preciso que haja cruzamento de avaliações, e de ideologias, para que o próprio avaliador seja avaliado. É preciso criar um campo de debate sobre os livros didáticos.

 

Educação - Quais as áreas de atuação do geógrafo? Magnoli - Hoje, as áreas de ensino perdem procura. Mas o trabalho do geógrafo é amplo. Envolve decisões locacionais de empresas, que precisam de um parecer de geógrafo; em órgãos governamentais como IBGE, que é dominado por economistas e deveria ter mais geógrafos; em órgãos de planejamento regional como a Sudene, por exemplo. Mas isso depende um pouco de os geógrafos se mexerem e provarem que a geografia é necessária e socialmente importante, em vez de apenas produzir pesquisas, também importantes, que circulam somente no meio universitário.

 

Educação - Sua posição, então, é de que a geografia está numa fase de pesquisa de gabinete? Magnoli - A geografia universitária no Brasil tem uma atuação social muito restrita. Basta ver que, nos últimos cinco, seis anos, tivemos duas grandes conferências da ONU - uma sobre assentamentos humanos e outra sobre população - que deveriam ter gerado vasto debate nacional, mas tiveram participação de pouquíssimos geógrafos. Uma parte da desvalorização social da geografia é culpa dos geógrafos.

 

 Fonte: Revista Educação. São Paulo: Editora Segmento.



Publicado por Profº Márcio Balbino Cavalcante às 02:33
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1 comentário:
De Eder Lira a 16 de Março de 2009 às 20:25
Professor Márcio.

Gostaria de convidar-lhe para visualisar uma publicação sua que postei em meu blog.Assim como as outras postagens.

Seria muito gratificante ter sua visita.

Eder Lira


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